Os caminhos que levam ao blues
Por inúmeras vezes acontecimentos importantes ligados às trajetórias pessoais acontecem à revelia de nossa vontade. Esta explicação pode ser atribuída a diversos fatores. Agora, ao pensar em algumas coisas para este editorial, acabei lembrando de passagens que nos trouxeram até esta noite. Tudo possivelmente deriva do começo da década de 90 quando me tornei estudante universitário e vim morar em Santa Maria, onde pude assistir a vários shows da Fire, liderada pelo casal Streit, ainda no agitado Over Buzy; do Lappan, com várias formações, no Belos & Malditos (o bar da Bel) já na Ângelo Uglione; do primeiro show da Soul State no saudoso Panacéia do Tide; da Hightime em várias oportunidades. Um pouco depois o ingresso do Mississipi Bar no cenário noturno de Santa Maria em substituição ao Belos, me permitiu assistir Fernando Noronha, Sólon Fishbone (por mais de uma vez) e Clara Ghimel. Como eram boas aquelas festas. O que fora Belos e depois Mississipi passou a ser Armazém Sul e um pouco da antiga proposta foi mantida e no mesmo palco vi Paulo Noronha Trio e depois Paulo Noronha & Convidados. A cena começava a tomar corpo. Mais tarde, já no Café Brasil tive a oportunidade de ver e ouvir Blues Etílicos e Flávio Guimarães, Big Alambik, além do incrível Phill Guy. Paralelamente, a cena roqueira bufava.
Após um pequeno hiato, o Coyote, que abriu suas portas em 2001, apostou no segmento blues como opção para uma noite de sua programação semanal, pilha de Caco Pereira. Uma das bandas chamadas para eclodir notas blues em profusão foi a Big Fat Woman, hoje com uma pegada mais rock’n’roll. Ingressaram também neste barco outras bandas que davam continuidade a sua já longa trajetória blues, como Celso Streit, Paulo Noronha, agora com Os Wattz, Red House e ainda Daniel Rosa & Saturno Blues – sangue novo que injetou ânimo e mobilização no segmento. O Sanduba Café Bistrô, através de Cristiane Ribeiro – RP da casa naquele momento, foi outra local que apostou nesta empreitada que começava a tomar ares de produtos massificado, fazendo das noites de sexta-feira um acontecimento esperado. Em todas as primeiras sextas do mês Paulo Noronha e Daniel Rosa comandavam uma jam que abre espaço para outros músicos. Estas jam’s geraram a “Quinta Rock” também no Sanduba.
Bom, a CESMA faz aniversário em junho e como estávamos pensando uma programação festiva que pudesse contemplar boa parte dos diversos públicos que compõem o quadro social, contatei a Red House, através do Márcio Grings, e Paulo Noronha que indicaram também Daniel Rosa & Saturno Blues, para realizarmos uma pequena apresentação dia 16 de junho do ano passado na Gare da Estação Ferroviária; data que coincidia com o aniversário da Cooperativa com a edição quinzenal do Bric da Estação. Foram feitas as tratativas necessárias, iniciamos uma mobilização em torno do show que por diversos motivos alheios ao esforço despendido acabou não acontecendo. Foi uma tarde muito infeliz que me deixou totalmente arrasado.
Em meio ao clima tenso criado e numa tentativa quase que desesperada de remediar o mal que já estava feito, estimulado pelo aval da presidência da cooperativa que presenciava tudo, cancelamos aquela apresentação e a transferimos para o Theatro Treze de Maio. Quando foi feita esta proposta, parte dos músicos e do público que estava na volta se manifestou “não conseguem produzir um show aqui e agora querem fazer no Theatro”. Na segunda-feira seguinte começamos a pensar o que viria a ser o Cesma in Blues, batizado assim pelo reverendo Grings, que passou a dividir comigo a coordenação do projeto. Depois que conseguimos uma data no Theatro e re-mobilizamos as pessoas envolvidas, tivemos momentos de muita expectativa sempre recheados de uma generosa dose de confiança. A nossa inexperiência foi subjugada pela euforia e pelo esforço pessoal de algumas pessoas envolvidas. Os ingressos foram vendidos antecipadamente, a casa lotou e as apresentações foram maravilhosas. Até então não tinha sido tão feliz. Minha felicidade completava-se com a felicidade de cada músico que descia do palco totalmente satisfeito com o trabalho desenvolvido. Esta deve ser a verdadeira satisfação do produtor cultural, ainda não conheço outra.
O esforço abnegado de Marcos Borba, que estava gravando com a TVE na noite anterior em Uruguaiana, chegando em cima da hora para a passagem de som, encarando a bronca de produzir o primeiro documentário musical de Santa Maria com a confiança que somente acompanha que ama o que faz, deu uma visibilidade que até então o projeto não tinha.
A partir daquela memorável noite fria de 21 de julho de 2002 o blues santa-mariense aglutinou forças e ganhou público em todas as apresentações. O blues foi elevado à enésima potência em Santa Maria, tanto é verdade que o Absinto Hall também se abriu para o blues e ali pudemos assistir a uma apresentação de Ron Levy, uma edição que foi chamada de Rock & Blues e outra maravilhosa e mais recente de J.J.Jackson. O Absinto criou também um ambientado Pub que recebe os blueseiros toda quarta-feira.
Tenho certeza absoluta que a inserção da CESMA como promotora deste tipo de evento foi fundamental para dar a credibilidade que o movimento precisava. Ora, uma instituição com 25 anos, reconhecida internacionalmente pelo serviço que presta à comunidade, apostar num evento musical como carro chefe de sua extensa programação cultural, respalda até mesmo a mais tímida das iniciativas. A estrutura do Theatro Treze de Maio, a parceria com a TV OVO, Rádio Pop Rock, Opus 20 Sonorizações e com todos os músicos envolvidos foi fundamental para o sucesso daquele evento. O sucesso era tão grande que éramos abordados e intimados por diversas vezes sobre a realização de um novo CESMA IN BLUES. Depois de muito pensar sobre o formato da segunda edição e depois de inúmeras negociações, chegamos a esta noite de celebração do movimento blues santa-mariense, resgatando o Conexão Blues que foi – e continua sendo – o verdadeiro e único veículo especializado da cidade. Envolvemos também outras formas de expressão artística em torno da música. Tudo isso nos trouxe até a noite de hoje. Que possamos nos encontrar mais vezes em outros lugares da cidade, acompanhados de boa música.
Paulo Henrique Teixeira
Coordenador do Cesma in Blues, em texto publicado originalmente em 22 de novembro de 2003, para a segunda edição do CIB
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